Parafraseando Woody Allen, não há nada mais bonito que o canto de um passarinho a acordar-nos pela manhã. É claro que se ele continuar a cantar por período maior que o desejável podemos ganhar uma dor de cabeça. Se o canto da avezinha for interminável, a vontade de lhe meter uma meia pela goela abaixo pode ser mesmo indomável. De uma outra maneira: se é verdade que as plantas necessitam de água para sobreviver, encharcar-lhe as raízes do - cada vez mais - precioso líquido pode matá-las. Que é que isto tem a ver com o disco da starletJohansson? Não faço puto de ideia, mas a primeira coisa que me vem à cabeça com a audição de "Anywhere I Lay My Head" é uma sinestesia: "encharcado em som". David Sitek (TV On The Radio), o produtor, parece ser o grande responsável. Até um certo ponto, entende-se a linha de raciocínio. A voz de Scarlett não é a oitava maravilha do mundo e toca de imbricar o som em produção. Muitas das músicas de Waits são agrestes, outras são quase pequenos segredos, histórias que nada ficam a dever ao glamour. Ora, a primeira função de um cacto não é servir de distracção para narizes ou olhos alheios. E neste disco, aconteceu um pouco isso: cactos, cravos ou jacintos, todos ficaram a parecer rosas. [Já chegava de Botânica, digo eu...] Em conclusão, querer pegar no jazz, no blues, no folk e tudo mais de Waits, misturar tudo no mesmo caldeirão, dissolver a mistura em pop dos 80's com um feel karaoke, e tirar de lá uma poçãozinha de "glam-pop" pode não ter sido a melhor ideia do mundo.
No mais, continuo a achar Scarlett Johansson uma das mais impressionantes conquistas visuais da Humanidade...
Falling Down, Scarlett Johansson (com David Bowie)
Já se esperava, tendo em conta que falta pouco mais que um mês para o lançamento, que começassem a surgir os primeiros sons de "Anywhere I Lay My Head", o disco de versões de Tom Waits da acima retratada. O resultado parece ser a revisitação pop com reminiscências 80's da música de Waits. Sonoramente, é uma abordagem interessante, ouve-se sem grandes arrepios, tendo apenas aquele óbice natural: os próprios originais. No mais, a miúda não desafina, mas não vamos muito para além daí, no que respeita aos seus dotes vocais.
Com a devida vénia e licença ao The Eyeball Kid, aqui fica Anywhere I Lay My Head, I Don't Wanna Grow Up e a agora 'lullabye' I Wish I Was In New Orleans.
Como é sabido, o projecto que começou por ser um disco de standards do jazz vai sair daqui a três meses como um álbum de versões de Tom Waits (ao qual se junta um original, Song For Jo), com o título da última faixa da pérola "Rain Dogs" (1985), "Anywhere I Lay My Head".
A coisa apresenta, desde logo, duas vantagens: primeiramente, porque... hmmm... quer dizer, pronto, olhem para a imagem acima; depois, porque a música de Tom Waits pode chegar a mais pessoas, e isso é serviço público. Se forem reparar na lista de convidados, com o Bowie a cantar em duas músicas ou o Dave Sitek dos TV On The Radio a produzir... bem, digamos que vale a pena estar atento. Para começar a preparação, nada me dá mais prazer (quer dizer, estava agora a olhar para cima e lembrei-me de 3 ou 9 coisas que até podiam fornecer mais alegria, mas...) que listar aqui as canções que serão alvo da aventura de Ms. Johansson - por mim, temo o degelo das calotas polares quando a menina cantar o Who Are You.
Já temos o material, já só falta a voz da miúda. Podem começar pela audição do clássico Summertime da ópera dos irmãos Gershwin, "Porgy & Bess", neste post do music in a box. Depois, é só dar uma saltada até este post do Classe de 70, e vê-la juntar-se em palco aos The Jesus & Mary Chain.
Em resposta ao post do inadjectivável Incontinental, queria apenas chamar a atenção para o presente, prevendo o futuro, com esta menina, que - de tão bonita - não se consegue explicar...
(Ah, pois. Quase me esquecia que isto tem uma música... E que bela música!) When The Deal Goes Down, Bob Dylan "Modern Times" (2006)
É neste momento em que, inadvertidamente, encho o peito de ar... para o deixar sair logo depois, quase silenciosamente...