20.9.09
10/10 (dez-em-dez)/Especial Bruce Springsteen #6 - "Born To Run"

Para começar, este é um dos melhores de rock de sempre, venha o que vier.
A primeira curiosidade é a de que as canções de "Born To Run" foram compostas por Springsteen ao piano, e não à guitarra. Talvez dito isto se perceba melhor algumas das opções de composições e arranjos do disco.

O disco começa com o que Springsteen chamou um convite, não só à Mary da letra, mas a todos os ouvintes. Um escape, um "vamos embora?", a ideia que tudo estará bem se sair de uma terra pequena e opressiva. Thunder Road transformou-se, por direito próprio, num hino rock intemporal. Um pouco ingénuo, como o é o tema-título, mas genuíno:

Thunder Road

« (...)
There were ghosts in the eyes
Of all those boys you sent away

They haunt this dusty beach road

In the skeleton frames of burned out Chevrolets


They scream your name at night in the street
Your graduation gown lies in rags at their feet

And in the lonely cool before dawn

You hear their engines roaring on

But when you get to the porch
They're gone
on the wind,
so Mary climb in

It's a town full of losers

And I'm pulling out of here to win
»

E quantos Win Butler (Arcade Fire) cabem nestas estrofes?

A seguir vem o soul-funk de Tenth Avenue Freeze-Out. Springsteen estava a ter alguns problemas com a música, até que Steve Van Zandt apareceu no estúdio e fez os excelentes arranjos dos sopros que podemos ouvir. Steven Lento, aliás, Steve Van Zandt, aliás, Little Steven, aliás, Miami Steve, aliás, Silvio Dante ("Sopranos") entraria na E Street Band na digressão de "Born To Run", onde ainda hoje se mantém - saíu em 1985 e voltou com a re-fundação da banda na segunda metade dos 90's. Contribuiu também com vozes secundárias em Thunder Road.

Tenth Avenue Freeze-Out

Backstreets é outro dos emblemas do disco e da carreira de Springsteen. Épico, 'larger than life', lindíssimo. Conta a história da relação 'envergonhada' entre o narrador e a personagem Terry, forçados a esconder o seu amor, até que a relação tem o seu fim e a personagem Terry encontra outro homem, com quem acaba por se ir embora.


Backstreets, Bruce Springsteen & The E Street Band
ao vivo no Hammersmith Odeon, Londres, 1975.



Born To Run

O segundo lado do disco começa com o tema-título, dando depois lugar ao rock com ritmo à John Lee Hooker de She's The One.
A seguir temos a história dos preparativos para um encontro ilícito pela noite, um golpe que pode ser a única esperança para as desesperadas personagens da canção. Springsteen dispensa a E Street Band para ser acompanhado por um trio de músicos jazz (piano, baixo e trompete).

O grande final guarda-nos Jungleland. Ainda mais épica e cinematográfica que o resto do disco, a derradeira música de "Born To Run" é uma das melhores músicas de Springsteen.
A introdução do violino e piano prepara o início da história de amor num contexto de violência de gangs dos subúrbios, a história de Rat e Barefoot Lady.
Um dos momentos mais marcantes da canção é o solo de saxofone de Clarence Clemmons. No documentário "Wings For Wheels" que saiu com a edição especial do 30.º aniversário de "Born To Run", ficamos a saber que o solo é, afinal, da autoria de Bruce Springsteen, que conduz Clemmons do início ao fim do solo, quase nota por nota. Mais um exemplo de que "Born To Run" é mesmo uma poderosa criatura saída da imaginação prodigiosa de um miúdo de 25 anos.

Jungleland

O disco, beneficiando de uma campanha publicitária generosa da 'Columbia Records', acaba por explodir e levar Springsteen à capa da 'Time' e da 'Newsweek'. Era uma espécie de salvador do rock n' roll americano - depois das mortes de Hendrix e Joplin, do fim dos Beatles e dos desaparecimentos de Dylan (curiosamente, também é em 1975 que Dylan volta aos grandes discos, com "Blood On The Tracks") - como mais tarde se refeririam a Kurt Cobain e, mais recentemente, aos Arcade Fire.

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Olavo Lüpia, 20.9.09 | Referências | 0 Feedback(s)
7.8.09
10/10 (dez-em-dez)/Porque hoje é Sexta...
 
Olavo Lüpia, 7.8.09 | Referências | 1 Feedback(s)
13.7.09
10/10 (dez-em-dez)/Blue Mondays...

Uma voz assombrosa e disco absolutamente fabuloso. Aqui em baixo ficam apenas três exemplos do que Sam Cooke nos deixou (*).

Lost and Lookin'
Mean Old World
Trouble Blues
Sam Cooke, "Night Beat" (1963)

_______________
(*) mas aqui, por exemplo, podem baixar o disco na íntegra.

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Olavo Lüpia, 13.7.09 | Referências | 1 Feedback(s)
24.11.08
Blue Mondays...
 
Olavo Lüpia, 24.11.08 | Referências | 1 Feedback(s)
22.11.08

Birthday - The Beatles
"White Album" (1968)

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Olavo Lüpia, 22.11.08 | Referências | 1 Feedback(s)
21.11.08
Porque hoje é Sexta.../A ternura dos 40/ 10/10 (dez-em-dez)

O 'álbum branco' dos Beatles faz 40 anos amanhã (data de lançamento). A coisa começa assim...


Back In The U.S.S.R., The Beatles
"White Album" (1968)

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Olavo Lüpia, 21.11.08 | Referências | 1 Feedback(s)
26.6.08
10/10 (dez-em-dez) - "Nebraska", 1982

Um pequeno tesouro. Uma espécie de low-fi acidental antes do "lo-fi". A verdade é que "Nebraska", subsequente ao duplo "The River" (1980) e precedente ao brutal estrelato de "Born In The U.S.A" (1984) não esteve para si este disco.
Springsteen gravou as canções num gravador de 4 pistas com o intuito de as registar para depois as gravar com a E-Street Band. E chegou a fazê-lo, mas teve de convir com o manager Jon Landau que o folk sombrio e misterioso das maquetes servia muito melhor o propósito das músicas. Especulando, andará, então, por aí um "Nebraska" eléctrico...
[Espero que não: que todas as masters tenham sido destruídas.]
Assim ficamos com a guitarra acústica, a voz e a harmónica de Springsteen... e pouco mais que isso (a guitarra torna-se eléctrica em Open All Night, uma espécie de 'off-topic' do disco).


Atlantic City

O que "Nebraska" tem para nos oferecer é um conjunto de contos pequenos, a serem ouvidos como se se visse um filme de pequenas histórias entrelaçadas, ao estilo de um "Magnolia" (1999). Pequenos contos sobre assassinos, como a assombrosa faixa-título que abre o disco - da qual falaremos noutra altura -, as relações de um mero 'peão' com a Máfia, no relato detalhado de Atlantic City, e uns mais humanos 'small-time crooks', em Johnny 99 ou State Trooper, para além do outro lado: o conflito de um agente da lei quando se vê perante o dilema de cumpri-la ou deixar o próprio irmão fugir (em Highway Patrolman). E como estas histórias se entrelaçam: o Frankie Roberts de Highway Patrolman podia muito bem ser a personagem da história seguinte, State Trooper, na sua desesperada e solitária fuga de carro nocturna. A cinematografia destes pequenos contos não podia estar mais exposta que neste pequeno facto: Highway Patrolman deu origem ao filme "Indian Runner" (1991, "União de Sangue", na versão portuguesa), com argumento e a estreia na realização de Sean Penn.


Highway Patrolman

State Trooper

No meio do "filme" aparece também a personagem Bruce Springsteen a exercitar (Mansion On The Hill) ou a exorcizar memórias de infância (My Father's House) - e um pouco das duas em Used Cars. Mansion On The Hill é uma referência verídica a uma grande casa numa colina nos arredores de Asbury, NJ, que fascinava a imaginação dos pequenos Bruce e Pamela Springsteen (a irmã mais nova), mas também a do jovem Danny deVito!...


Mansion On The Hill

No final, como em qualquer filme e como em qualquer história, vem a sua sustentação moral, neste caso uma esperança misteriosa - divina? - que dá às pessoas uma razão para acreditar.


Reason To Believe

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Olavo Lüpia, 26.6.08 | Referências | 1 Feedback(s)
24.10.07
Neil Young Reserva '72

Out On The Weekend, Neil Young
gravado nos estúdios da BBC, em 23.02.1971
música incluída, mais tarde, no fenomenástico "Harvest" (1972)

The Needle and The Damage Done - Neil Young
"Harvest" (1972)

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Olavo Lüpia, 24.10.07 | Referências | 1 Feedback(s)
1.7.07
10/10 (dez-em-dez) - "OK Computer", 1997 (parte 2)
(capa do disco: Stanley Donwood)


(continuação)

Se Paranoid Android é a peça charneira do disco, o seu resumo musical em seis minutos e qualquer coisa, Fitter Happier é o coração. Um coração de classe média, com a voz sintetizada da plataforma de um Macintosh.
Cristaliza-se a metamorfose do homem em máquina, que resume o sentir global do disco, repleto de slogans do tão em voga "viver saudável". Consta que o piano que podemos ouvir em fundo foi criado por Thom Yorke, em estado ébrio.

Fitter Happier

Do maquinismo eléctrónico de Fitter Happier passa-se para o pulsar vivo de Electioneering. O riff rock excitante, saído da guitarra de Jonny Greenwood, dá o tiro de partida para uma verdadeira montanha russa musical. A guitarra de Greenwood é, aliás, o que mais sobressai da música: enquanto Yorke canta magistralmente o refrão «When I go forwards/and you go backwards/and somewhere we will meet...», Greenwood faz com a sua guitarra, exactamente, tais percursos. Uma ideia simples, mas de uma eficácia tremenda.

Electioneering

A onda de excitação é quebrada com a hipnótica e demencial Climbing Up The Walls. As guitarras que faziam a faixa anterior (assim como o baixo) são agora substituídas por sintetizadores, que apenas são acompanhadas por cordas na sua parte final, num arranjo orquestral estranhíssimo - segundo J. Greenwood, inspirado no trabalho do compositor e maestro polaco, Krzysztof Penderecki. Os violinos não estão a tocar exactamente a mesma nota, mas notas separadas por quartos de tom, num efeito assustador, para o qual também concorre a voz de Yorke.

Climbing Up The Walls

A pura pop de No Surprises toma então o seu lugar, naquele que seria o terceiro single extraído do disco. Música mais simples no catálogo dos radiohead não existe. Um arpejo de guitarra, tocada com o capodastro no 15.º trasto, é o pano de fundo para toda a ode a um estilo de vida simples, sem stresses ou pressões urbano-depressivas.
Mais um vídeo excelente, realizado por Grant Gee (realizador do documentário de 1998, "Meeting People is Easy", sobre a digressão de promoção a este mesmo disco), em um só plano, sem cortes, e que servirá como prova da resistente caixa torácica de Thom Yorke, que serve não apenas para suster e vibrar a sua voz ou aclarar os falsetes.



Lucky é a faixa seguinte. Já havia sido editada num disco de apoio às crianças localizadas nos cenários de guerra da Bósnia-Herzegovina, de nome "The Help Album" (1995). Mais uma excelente música, com um refrão dramático e majestoso. O arranjo instrumental final é simplesmente soberbo.

Lucky

O disco acaba com The Tourist. Para não destoar, mais uma música impressionante. Os compassos irregulares e o casamento perfeito entre as vozes de Yorke e do guitarrista O'Brien são os seus pontos fortes, até ao "sininho" que dá por concluída a canção e o disco (que há quem pense tratar-se do sinal sonoro de um micro-ondas).

The Tourist


"Ok Computer" é, assim, um disco equilibrado, sem músicas menores. Em todas elas se vislumbra o trabalho aturado de composição, arranjo e produção. Um disco inovador, onde o calor do rock e a electrónica mais fria se juntam, de uma forma perfeita.
Pessoalmente, é um disco de uma vida.
Vejo-me até à sua audição como um ouvinte de rock e do pós-grunge, dos Pearl Jam (que, por acaso, reparei, ainda não coloquei aqui no tasco - só mesmo por acaso), dos Alice In Chains e, especialmente, dos Soundgarden até às suas influências principais, Led Zeppelin, Jimi Hendrix, Neil Young, etc.
Vejo-me depois como um ouvinte aberto a todo o tipo de música, sem preconceitos.
Antes gostava de guitarras, de baixos, de baterias, de vozes, depois fiquei a gostar de música - daí, talvez, se explique assim um pouco, também, o nome aqui do estaminé.

(Ainda assim, aqui fica uma "prendinha" para todos os guitarristas)

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Olavo Lüpia, 1.7.07 | Referências | 0 Feedback(s)
30.6.07
10/10 (dez-em-dez) - "OK Computer", 1997 (parte 1)
(capa do disco: Stanley Donwood)


Passam já dez anos sobre aquela que é, talvez, a melhor obra prima musical dos últimos 30 anos. Um disco que marca uma geração de músicos e melómanos, com música intemporal, superiormente escrita e arranjada e com a produção insuperável do então desconhecido Nigel Godrich, que havia assistido John Leckie na produção de "The Bends" (1995), e da própria banda.
O disco pode ser visto como «O definitivo guia para a sobrevivência nas sociedades modernas ocidentais», com foco especial na pressão e alienação do ser humano, causada por uma evolução social e tecnológica, que processou informação excessiva em relação ao que o Homem consegue assimilar. A mecanização e automatização das acções humanas - já não resultado da vontade consciente da pessoa - vai sendo explorada ao longo do disco (como exemplos, Paranoid Android, Let Down, No Surprises e, por todas, Fitter Happier).

O disco começa com Airbag. A batida de Phil Selway e o riff de guitarra de Jonny Greenwood constroem a rede de sustentação para uma música que apresenta uma estrutura convencional de canção, estrofe/refrão. No entanto, todo o trabalho de guitarras e percussão que vai acontecendo em pano de fundo, como que uma parede sonora, é absolutamente impressionante, até que tudo se caotiza mais para o final, com o noise das guitarras e dos mais variados instrumentos de percussão utilizados e sons computorizados.

Airbag

A seguir, chega o primeiro single de apresentação de "OK Computer", Paranoid Android. 3 músicas comprimidas e juntas numa, o que originou algumas comparações com Bohemian Rhapsody, dos Queen.
Musicalmente, é uma espécie de junção entre uns Pink Floyd dos anos 70 e uns Radiohead de "The Bends"; liricamente, é inspirada na personagem Marvin, o boneco que podem ver na barra lateral direita (na versão cinematográfica de 2005), de "The Hitchiker's Guide to the Galaxy", do escritor britânico Douglas Adams.
Não há muito a dizer mais sobre esta música, para além de que a considero a melhor música dos anos 90 e uma das melhores e mais inovadoras musicas de sempre. Tudo está pensado e executado ao milímetro. Os riffs das guitarras que vão dando os diferentes motes às sub-músicas são muito inteligentes, todos os sons que ouvem estão pensados ao milímetro e têm que escutar a músicas umas boas dezenas de vezes até os conhecerem todos. Desde a bateria clínica de Phil Selway, passando pela excelente linha de baixo de Colin Greenwood, os solos esfuziantes de Jonny Greenwood, o preenchimento de som por Ed O'Brien até à frágil e lindíssima voz de Yorke... está tudo lá.
Ainda sobre esta música, impossível esquecer o seu assombroso vídeo, realizado por Magnus Carlsson, responsável pela série animada "Robin", cujas personagens são "estrelas" do vídeo.




Subterranean Homesick Alien é uma música cujo título é inspirado na música Subterranean Homesick Blues, de Bob Dylan.
Sobre esta música, o guitarrista Jonny Greenwood explica que tentou recriar o ambiente de "Bitches Brew" - disco de 1970 de Miles Davis. O som, misterioso e futurista, serve a canção na perfeição, na sua história sobre um rapto alienígena.

Subterranean Homesick Alien

Exit Music (For A Film) aparece pela primeira vez, no final do filme "Romeo + Juliet" (1996), de Baz Luhrman, ainda que não tivesse feito parte da banda sonora original, a pedido de Thom Yorke. A música é inspirada, segundo o próprio Yorke, no exacto momento da narrativa em que Julieta aponta a arma à sua cabeça, vendo Romeu morto.
É outro verdadeiro monumento. Conduzida pela guitarra acústica de Yorke, naquela que podia ser uma balada folk ao estilo de um The Day Is Done de Nick Drake - a sequência de acordes iniciais é a mesma! -, as camadas de som que são colocadas na música dão-lhe uma tonalidade lúgubre. Temos samples de sons que parecem ser de crianças a brincar, coros de vozes sintetizados, até que a bateria e um baixo em pesada distorção entram na música, no seu climax apoteótico.

Exit Music (For A Film)

Depois, uma das minhas favoritas do disco e uma das mais melancólicas, Let Down, que esteve para ser o primeiro single do disco.
O riff da guitarra de Greenwood, tocado num compasso diferente do tradicional 4/4 em que estão os restantes instrumentos, é a primeira coisa a ouvir-se. Uma música pop perfeita, com as harmonias vocais de Yorke em plano de evidência, até ao seu final em forma de loop electrónico.

Let Down

Karma Police dispensa qualquer tipo de apresentação. É o segundo single de "OK Computer" e aquele que acabaria por focar as atenções do público em geral sobre o disco.
O som estridente final sai da imaginação do guitarrista Ed O'Brien, através da saturação de sons introduzidos num aparelho de delay digital.
O vídeo é realizado por Jonathan Glazer. Excelente, como já lhe é costume.




(continua)

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Olavo Lüpia, 30.6.07 | Referências | 0 Feedback(s)
11.6.07
Blue Mondays...
... talvez na sua mais agitada edição de sempre.

Babe I'm Gonna Leave You
Dazed and Confused
Led Zeppelin, "Led Zeppelin" (1969)

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Olavo Lüpia, 11.6.07 | Referências | 0 Feedback(s)
7.6.07
Directamente do baú
"New York" (1989)

«This album was recorded and mixed at Media Sound, Studio B, N.Y.C., in essentially the order you have here. It's meant to be listened to in one 58 minute (14 songs!) sitting as though it were a book or a movie» - Lou Reed.

Sempre ligado à sua cidade, só no final dos anos 80 é que Lou Reed dedica um disco a New York. 14 histórias e fábulas urbanas.

Numa visita a uma grande superfície comercial ali para os lados do Porto, o meu irmão mostrava-me a sua última conquista: «Este é o Lou Reed...», disse-me enquanto me mostrava o vinil do "New York".
Eu tinha 12 ou 13 anos e não percebi nada do que ele me estava a dizer. O pouco inglês que eu sabia tinha-me sido ensinado pelos filmes, pelo Bruce Springsteen e pelo Bob Dylan. Não o sabia, mas estava a dias de juntar o Lou Reed à lista de "professores".
O que eu não atingi foi que um disco como "New York" (com as histórias imbricadas, o sarcasmo e a "bílis na língua" típicos de Lou Reed) é imperceptível para um puto de 12 ou 13 anos que havia nascido, vivia e crescia numa pequena terra do Norte de Portugal.

O som é cru. Temos duas guitarras, um baixo e uma bateria - ponto. Não abundam arranjos musicais fascinantes, só o velho mote de Dylan «...a red guitar, three chords and the truth» - pelo menos, a verdade de Lou Reed.


Dirty Blvd.

E são mesmo as palavras que sobressaem. Há de tudo em "New York".
Uma história de amor nas franjas da sociedade - com traficantes de droga e gangs armados em Romeo Had Juliette - em três minutos. Uma descrição agridoce e comovente do desfile do Halloween de Greenwich Village, para doentes de SIDA, em Halloween Parade. Em Dirty Blvd., vamos conhecer Pedro, que vive num hotel merdoso com 9 irmãos à sua conta, instintos parricidas originados nas cargas de pancada que leva por estar demasiado cansado para pedir dinheiro nas ruas e a falta de opções que faz com que o sonho passe por ser "dealer" ou, muito mais simples para uma criança como ele, olhar para o céu, contar até 3 e voar dali para fora.
Endless Cycle é uma peça sobre o ciclo interminável da violência que passa entre gerações como se de doença hereditária se tratasse. Um homem que luta contra a herança de violência e abuso de drogas. Do outro lado, uma mulher que se debate com sua própria herança de violência e alcoolismo. O remate de Reed:
«(...)
The man if he marries will batter his child
And he'll have endless excuses
The woman sadly will do much the same
Thinking that it's right and it's proper.
Better than their mommy and their daddy did
Better than the childhood that they suffered
The truth is they're happier when they're in pain
In fact that's why they got married
».

O repto para a mudança de There Is No Time é seguido de um retrato impressionante, fabuloso, duríssimo mas cómico, da América e dos americanos, à laia da sua indiferença perante as questões ambientais, em Last Great American Whale (com a Velvet Underground "Moe" Tucker na percussão):
«(...)
Americans don't care to much for beauty
They'll shit in a river, dump battery acid in a stream
They'll watch dead rats wash up on the beach
and complaint if they can't swim (...)».

A seguir, Lou Reed compila uma série de conselhos "preciosos" a dar a um filho que venha a gerar. Adivinham os que acharam que o cinismo e o cepticismo abundam na jazzy Beggining of a Great Adventure, que fecha o lado A do disco.

Last Great American Whale
Beggining of a Great Adventure

O niilismo é o ponto forte da faixa que abre o Lado B, Busload of Faith, segundo a qual não se pode contar com a família, amigos, princípios e fins, deus, inteligência, mas apenas e só com a crueldade, com o pior e com uma enorme dose de fé para nos aguentarmos.
Sick Of You tem como alvo a sociedade e a política: a nova-iorquina e, depois, a de todos os EUA. A violência - em especial, a racial - é o tema de Hold On.
A política, agora aliada à religião, é-nos servida amarga em Good Evening, Mr. Waldheim. Kurt Waldheim havia sido Secretário-Geral da ONU entre 1972 e 1982 e, naquela altura, desempenhava o cargo de Presidente da Áustria (1986-1992). Era conotado como tendo ideias anti-semitas e persona non grata nos Estados Unidos. Logo na primeira frase, Reed fala do que ele e o Papa tinham em comum... A seguir, os focos vão para o Rev. Jesse Jackson (também ele com gaffes sobre judeus e ligações a Louis Farrakhan, líder da organização social e política "Nation of Islam") e a OLP.
Xmas in February é a história de Sam, um veterano do Vietname, da sua alienação face à sociedade e do alheamento desta para com ele.
Em Strawman, Lou Reed dispara em todas as direcções, dos excessos da indústria cinematográfica a Michael Jackson, do programa espacial americano ao Presidente e na futura colheita amarga do que a sociedade americana estava a semear.

O disco acaba com um off-topic em regime experimental, (The Last Temptation of The) Dime Store Mistery, dedicado ao recém falecido Andy Warhol, em mais um excelente texto. Mais uma vez, com a percussão de "Moe" Tucker.

Busload of Faith
Dime Store Mistery

Esta última música acaba por fazer a ponte com o trabalho seguinte, a meias com John Cale, "Songs For Drella".

Muito fica por dizer sobre "New York", sobre a Statue of Bigotry a que Lou Reed se refere em duas alturas diferentes do disco, sobre a desconfiança da própria mãe, sobre o "não acreditar em nada do que se ouve e só em metade do que se vê"...
O melhor mesmo é ouvirem e lerem, de um só "gole", em 58 minutos.

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Olavo Lüpia, 7.6.07 | Referências | 2 Feedback(s)
1.6.07
10/10 (dez-em-dez) - "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" (1967)


Alterando as primeiras palavras que nos são cantadas no disco, «it was 40 years ago, today...» que se ouviu pela primeira vez um disco dos Beatles que marcou a história da música.
"Sgt. Peppers..." foi lançado em 01 de Junho de 1967 no Reino Unido e no dia seguinte nos Estados Unidos.
Aproveitando o caminho de experimentalismo psicadélico aberto com "Revolver", este disco parte daí para ir mais além. Os speakers Leslie, o fuzz das guitarras, os efeitos "phaser" e "flanger", o Mellotron, efeitos de reversão (reproduzindo partes instrumentais ao contrário, entenda-se)... tudo valeu e tudo foi testado.
O início do disco basta para deixar qualquer um sem fôlego, com o tema-título, seguido de With a Little Help From My Friends, Lucy In The Sky With Diamonds e Getting Better... Depois Fixing a Hole, onde a tonalidade clássica do cravo se junta ao music-hall e ao rock.
Logo a seguir, outro clássico: She's Leaving Home, a que se sucede outra grande música, entre o music-hall e a pop, Being For The Benefit of Mr. Kite.

Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band
Getting Better
Fixing A Hole

A segunda parte do disco começa de uma forma absolutamente desconcertante, com as cítaras e percussões exóticas de Within You Without You e a influência profunda que a música de Ravi Shankar trouxe ao aqui compositor George Harrison. É, sem favor, uma das peças maiores do disco. Como resposta, aparecem os incontornáveis sopros de When I'm Sixty-Four (onde se destaca, claro, o clarinete). A adorável Lovely Rita aparece depois, com sentimento pop e teclas R&B.
De sopros e percussão se constrói Good Morning Good Morning, até o solo de guitarra de Harrison caotizar a música.

Within You Without You
Good Morning Good Morning

O fim do disco surpreende mais uma vez com a reprise de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band que antecede mais uma peça de antologia, A Day In The Life.

A Day In The Life

O caminho traçado em "Sgt. Pepper's..." foi mais um marco e um salto para a frente na história da música. Com ele, os Beatles fizeram na pop/rock mais mainstream o que Frank Zappa acabaria por fazer em quase todos os outros estilos musicais: a partir daqui, tudo era possível! As portas para a modernidade abertas em "Revolver" tinham-se agora escancarado definitivamente.
E já tem 40 anos...

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Olavo Lüpia, 1.6.07 | Referências | 3 Feedback(s)
23.5.07
10/10 (dez-em-dez) - "The Queen Is Dead", 1986

10 músicas. Todas, no mínimo, muito boas. A maior parte, geniais. Um verdadeiro tratado da música pop.
Enquanto que a composição musical e arranjos estavam entregues a Johnny Marr, com as complexas e imbricadas paredes de som que saíam da guitarra e das orquestrações sintetizadas, o lirismo vinha de Steven Patrick Morrissey.
No entanto, The Queen is Dead, a primeira música, quase parece desmentir tudo o que acabo de escrever. Estrutura mais rock, assente no riff do baixo de Andy Rourke e no ritmo quase tribal da bateria de Mike Joyce, a base por onde planam as guitarras em desconcerto de Marr e a voz de Morrisey, aqui a lidar com os seus fantasmas, enquanto dispara projécteis violentíssimos contra a realeza e a igreja... Não é, pois, bem a ideia da pop convencional.
Mas tudo muda com Frankly, Mr. Shankly, onde, acima de tudo, é Morrissey quem brilha, com uma letra cheia de pérolas de humor e ironia.
Nada nos prepara para a desolação e desespero que vem a seguir, com a genial I Know It's Over. Musicalmente, tudo está no sítio: bateria, baixo, guitarras e orquestrações e a vocalização sentida. A letra é outra coisa impressionante e - pelo menos, a mim - remete-me para a capa do disco, com a frase-chave: «Oh, Mother, I can feel the soil falling over my head». Os pormenores da narrativa são revelados de uma forma quase escondida ou disfarçada, deixando-nos surpresos e suspensos de um fim que é logo anunciado no início.
O desalento continua com I Never Had No One Ever, onde é, mais explicitamente que nas outras faixas, referido o tema recorrente em muitas cancões deste disco, a solidão.
As coisas ficam bem menos sombrias logo a seguir, com aquela que podia muito bem ter influenciado o filme "Clube dos Poetas Mortos" (1989) ou fazer parte da sua banda sonora. Em Cemetry Gates, Morrissey diz que é preciso tomar a escrita como nossa, fugir do plágio e que Oscar Wilde vence aos pontos Keats e Yates, juntos. É uma música trademark dos Smiths, muito contribuindo a composição e aquelas fabulosas guitarras de Johnny Marr, sempre no sítio certo e respondendo às frases vocais de Morrissey, com frases musicais à altura: sempre perfeitas, rítmica e melodicamente.
A esta seguem-se dois monstros dos quais pouco ou nada se pode acrescentar: os hiatos temporais humorísticos de Bigmouth Strikes Again (com as guitarras, mais uma vez, aquelas guitarras...); e The Boy With The Thorn In His Side, com o "eu" e o "nós".
Depois vem o pseudo-rockabilly de Vicar in a Tutu, talvez a música menos forte do disco, que abre caminho para outro monumento: There Is A Light That Never Goes Out. Mais uma vez, o lirismo de Morrissey atinge os píncaros com um refrão do outro mundo, com a ajuda da orquestração electrónica brilhante de Johnny Marr. Genial.
O disco acaba com uma música que se explica a si própria: Some Girls Are Bigger Than Others, de onde se destaca - nunca é demais - Johnny Marr.
Um disco muito equilibrado, com músicas excelentes, que ouço e re-ouço vezes sem conta, como hoje.

The Queen Is Dead
I Know It's Over
Cemetry Gates


Para tudo o que foi postado sobre este disco aqui no tasco, sigam a etiqueta "The Queen Is Dead", em baixo.

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Olavo Lüpia, 23.5.07 | Referências | 4 Feedback(s)
7.5.07
Pink Mo(o)ndays...

De antologia.

Pink Moon
Wich Will
Things Behind The Sun
Parasite

Nick Drake, "Pink Moon" (1972)

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Olavo Lüpia, 7.5.07 | Referências | 1 Feedback(s)
2.5.07
Palavras para quê? IX/ 10/10 (dez-em-dez)

Well, You Needn't - Thelonious Monk
Ruby, My Dear - Thelonious Monk
"Monk's Music" (1957)

Também, com uma banda assim:
Thelonious Monk, piano; Ray Copeland, trompete; Gigi Gryce, sax alto; Coleman Hawkings, sax tenor; John Coltrane, sax tenor; Wilbure Ware, contrabaixo; Art Blakey, bateria;

Palavras para quê?...

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Olavo Lüpia, 2.5.07 | Referências | 1 Feedback(s)
4.4.07
10/10 (dez-em-dez) - "Blue", 1971

Pode ser exagerado, pode ser do tom confessional do disco, pode ser por estar a ouvi-lo enquanto escrevo, mas quando uma mulher canta bem, canta assim.
Tudo no seu devido sítio, sem defeito ou excesso, sem maneirismos de diva. Assim!
"Blue" apanha os guias Bob Dylan e Joan Baez e transporta as cantautoras até ao presente. Sim, podem ouvir Tori Amos, Fiona Apple, entre muitas outras válidas expressões musicais no feminino e... já estava tudo em Joni Mitchell, há mais de 35 anos.

"Blue" é um disco folk excelente.
Ora construídas a partir da guitarra, ora do piano, as músicas desenham as teias onde Joni coloca a sua fantástica voz e letras de uma extraordinária sinceridade. Sobre amor (All I Want ou My Old Man), desamor e perda (This Flight Tonight, o triste Natal de River, a magistral A Case Of You) e até a entrega de um filho para a adopção (Little Green), o coração de Joni é deitado para fora e exposto em letras excelentes.
Por isto tudo, "Blue" é não apenas recomendado como obrigatório.
A muito custo, aqui ficam três exemplos de momentos fabulosos do disco.

All I Want
River
A Case Of You

Nos finais deste mês, será lançado um disco de tributo a Joni Mitchell, com as presenças, entre outros, de James Taylor, Elvis Costello, Sufjan Stevens, Prince ou Brad Mehldau.

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Olavo Lüpia, 4.4.07 | Referências | 3 Feedback(s)
13.3.07
Assustadoramente belo
Chaga - Ornatos Violeta
"O Monstro Precisa de Amigos" (1999)

«Foi como entrar,
Foi como arder.
Para ti nem foi viver.
Foi mudar o mundo
Sem pensar em mim!
Mas o tempo até passou,
E és o que ele me ensinou:
Uma chaga pra lembrar que há um fim.

Diz sem querer poupar meu corpo:
"Eu já não sei quem te abraçou".
Diz que eu não senti teu corpo sobre o meu.
Quando eu cair
Eu espero ao menos que olhes para trás.
Diz que não te afastas de algo que é também teu..
Não vai haver um novo amor,
Tão capaz e tão maior,
Pra mim será melhor assim.
Vê como eu quero
E vou tentar,
Sem matar o nosso amor,
Não achar que o mundo é feito para nós.
»

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Olavo Lüpia, 13.3.07 | Referências | 0 Feedback(s)
7.2.07
10/10 (dez-em-dez) - "Are You Experienced?", 1967

Talvez o melhor guitarrista de todos os tempos. De longe, um dos que influenciou mais gente. Pode dizer-se que existe a guitarra antes de Hendrix (AH) e outra depois de Hendrix (DH). Do uso do pedal de wha-wha [ouça-se Voodoo Chile (Slight Return)] ao som fuzz da guitarra, o uso do tremolo ou barra whammy para, em conjunto com o feedback, inventar as dive bombs... (Cenas!...)
É também um factor exponencial (espero não estar a dar uma argolada técnica!) da era psicadélica, da geração do amor e de Woodstock.

"Are You Experienced", lançado em 12.05.1967, é o primeiro LP da Jimi Hendrix Experience (com Hendrix na guitarra e voz, Chas Chandler no baixo e Mitch Mitchell na bateria).
Nele podemos encontrar de quase tudo: o rock «sexy» de Love Or Confusion, Fire ou Foxy Lady, com riffs fabulosos (como o de Purple Haze ou I Don't Live Today); o jazz «ácido» de Third Stone From The Sun ou Manic Depression; as baladas May This Be Love e The Wind Cries Mary; a completamente psicadélica Are You Experienced?; a soul de Remember; e o «12-bar blues» de Red House.
Já para não falar do mega êxito, Hey Joe.
Tudo isto servido com aqueles comprimidinhos mágicos que fazem a vida ficar bem mais colorida!... Em todos essas músicas existe o psicadelismo.
Em suma, um disco muito variado, uma das melhores álbuns de estreia de sempre. Um disco que apenas não chegou ao #1 das tabelas britânicas devido a outro monstro, "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", dos Beatles.

Termino com uma história que é História.
Consta que Hendrix era um porreiraço, mesmo quando já nem conseguia falar e muito menos saber onde está... No dia 4 de Junho de '67, Hendrix tocava o último concerto em Londres, antes de voar até aos Estados Unidos. Esse espectáculo, no Saville Theatre, contou com muitas celebridades na plateia, como Eric Clapton, Jack Bruce, Brian Epstein e os Beatles McCartney e Harrison.
Pois bem, Hendrix aprendeu a tocar a música novinha dos Fab Four, Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, e abriu o concerto com ela para lhes prestar homenagem! Conseguem imaginar um acto tão enorme como este no pop rock de hoje em dia?
Quanto ao que interessa:
Purple Haze
Manic Depression
Hey Joe
May This Be Love
The Wind Cries Mary
Fire
Foxey Lady
Are You Experienced?

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Olavo Lüpia, 7.2.07 | Referências | 0 Feedback(s)
9.1.07
10/10 (dez-em-dez) - "Five Leaves Left", 1969


3 discos, música intemporal, uma vasta legião de influenciados e seguidores. Qualquer desses discos é merecedor da classificação "10/10", se bem que, ainda assim, expresse a minha preferência por este "Five Leaves Left" e por "Pink Moon" (1972). De permeio, encontra-se o também excelente "Bryter Layter" (197o) - único gravado com uma verdadeira banda, onde se incluiam, entre outros, John Cale, tocando teclas e harpa).
É difícil escolher palavras para Nick Drake. Tinha uma voz fabulosa, era um compositor de mão cheia e um guitarrista excelente. A sua música encontra-se dentro do universo da folk tradicional britânica (pondo-o a par de Bert Jansch, por exemplo), não deixando, no entanto, de se mutar, por exemplo, em canções pop perfeitas (como Saturday Sun).
A verdade, no entanto, é que Nick Drake passou completamente despercebido enquanto foi vivo - a letra de Fruit Tree (link abaixo) é assustadora(mente bela), em relação a isso.
Os ambientes criados por Drake nas suas músicas mexem com o ouvinte e sugerem-lhe as mais variadas imagens, quase que dispensando a voz. Mas eis que ela aparece, quase sempre como um lamento, desconcertando o que resta de quem ouve - a título meramente exemplificativo, ouça-se River Man ou Day Is Done.
A melancolia e a depressão (Day Is Done), o bucolismo (The Thoughts Of Mary Jane), o romance falhado (Time Has Told Me) e a efemeridade da vida (Fruit Tree) são os estados de espírito dominantes das canções de "Five Leaves Left" - e de Drake, em geral.
O ponto de partida para as canções deste disco é sempre a guitarra acústica de Drake, ao que se lhe juntam o baixo de Danny Thompson, cordas, com arranjos de Robert Kirby, e a excelente percussão de Rocky Dzidzornu - ouça-se Three Hours e Cello Song.
A produção de Joe Boyd completa o quadro, dando um corpo sólido e coerente ao som de Drake.

Sempre relutante em actuar ao vivo, Drake ganhou também aversão a gravar discos depois do minimalismo (mais uma vez) incompreendido de "Pink Moon". Os seus problemas psiquiátricos foram tomando a sua vida por completo, deixando-o hospitalizado por diversas vezes.
Em 25 de Novembro de 1975, Drake morre aos 26 anos, ao que tudo indica devido a uma overdose de anti-depressivos. O mundo perdeu um dos seus compositores mais intrigantes e promissores.
Daí que, profecia-puxa-mito, este "Five Leaves Left" parecia absurdamente premonitor, tendo em conta os 5 anos que restaram entre a sua edição e a morte do "profeta", cumprindo-se, in totum, a profecia de Fruit Tree.
Misticismos à parte, o que realmente interessa dizer é que "Five Leaves Left" contém em si 10 músicas eternas. Ei-las, por ordem e das mais variadas maneiras possíveis:


Time Has Told Me


River Man

Three Hours

Way To Blue


Day Is Done


Cello Song

The Thoughts Of Mary Jane

Man In a Shed


Fruit Tree

Saturday Sun

(letras)

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Olavo Lüpia, 9.1.07 | Referências | 0 Feedback(s)